domingo, 28 de fevereiro de 2021



    


       Triste é fazer da vida negra quando tão colorida ela o é. Negras são algumas lindas flores, bem como alguns bons humores que fazem rir ao deus-dará. Negras são as naftas que boiam e que o mar de volta trará. Nem a noite sem as estrelas tal viúva que o não é, é tão negra como pensam, negra é certa maré. Vejo o negro como cor, sinto o negro como luz, e as negras dores que me ensinam que tudo é vida, e seduz. Tento ver longe no negro, vivo a claridade do todo finito, e encontro nesse momento um carinho tal um barco num porto de abrigo. Não me escondo nem tento fugir, da vida, da morte ou do escuro pois são coisas naturais do dia, e ver luz é saltar o muro. O muro é a minha cabeça, meus sentimentos e emoções,  salto a cerca sem estar aflito, e procuro um caminho, o meu fito. Do carinho, do amor e verdade, e assim, por conseguinte, da paz. É um caminho bem possível e até fácil se de me trabalhar for capaz. Por isso tento e não paro, não posso. Tenho e gosto de fazer. Para não definhar devagar, p'ra viver em pleno prazer.

       Não é triste nem vergonha morrer. Triste é fazer da vida negra quando tão simples de a pintar ela o é. 

4 comentários:

  1. Um texto do caraças! Não para dividir orações, nem para em orações (de rezas) se tornar. Tantas as cores!. Como José Gomes Ferreira proibia, não pintem de outra cor - ou sem cor, isto é, de luto - as papoilas dos trigais. Escreve mais!

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  2. As fotos são parte do texto, são sintomáticas. Fotografa mais!

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  3. A primeira leitura comoveu-me, deixou-me a cabeça às voltas. Voltarei para fazer mais leituras, tentarei depois transmitir-te a minha admiração, a minha ternura e todas as cores da vida e da morte...

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  4. Texto riquíssimo, cheio de caminhos, de luz e sombras. É sabedoria "ver longe no negro" e ver a finitude da claridade. É sabedoria não fugir nem da luz nem da escuridão. É sabedoria aceitar a vida e a morte sem vergonha de sentir tristeza, mas procurando sempre a luminosidade.
    Belíssimas as fotografias e o que entendo ao olhá-las: a água que flui, a ponte que ajuda a atravessar a água…
    O meu abraço, com todos os cambiantes que se sente quando se vive inteiro!

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