quarta-feira, 28 de dezembro de 2022




Há muito que não via das nuvens tantas gotas de água a tombar, mas duvido que não tenham estado a cair e seja eu que não ande a olhar. Observar, ver e olhar são distintos estados da alma mas são juntos, os três todos eles, bons sinónimos do verbo sonhar. É que a chuva não molha por raiva, ao invés até hidrata e afaga, e por muita que seja essa água, ela cai carinhosa a meus pés. Olho o rio que trespassa as margens e vejo gotas de água apenas, observo que juntas conseguem o que a uma sozinha transcende, só fazendo as plantas mais ternas. Pois que se espantem os mais sábios se digo que adoro essas gotas nos lábios, que me correm dos olhos às vezes e transpiro com a luta e o trabalho. Sou água, sou ar e bem terra, e até fogo! que não me volto a queimar. Sou uma gota que a outras me junto para todas chegarmos ao mar. Não sou mais nem sou menos que as outras, apenas único na individualidade. Ontem queria ser Mar, Oceano, um rio largo com pontes e mais, mas hoje quero apenas ser gota, um ribeiro sereno que rega um terreno onde a horta sabe o que é amar. Não sou mais nem sou menos, sou eu, uma gota num todo tão grande que pequena me leva a sonhar. Como gota que sou vou em frente a sonhar qualquer dia o meu mar alcançar. Como a gota que não desespera, esperarei o meu rio me levar.
 

2 comentários:

  1. É uma ode à natureza, o teu texto! É uma confissão da tua ligação à terra, aos rios, ao mar. É um belíssimo modo de dizer o que és, o que são as tuas bases, onde se origina o teu cerne. Mais um passo, largo, no teu conhecimento. Que nunca será total! Parabéns por mais esta reflexão inteligente e poética!

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  2. E a fotografia está adequada: misteriosa mas compreensível!

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