As nossas portas são janelas abertas para o mundo e para as hortas. Entra luz e sente-se o cheiro das flores do campo inteiro. São morcegos e são pardais, são besouros e tantos mais que nos olham com um sorriso. E o vento pasmado tenta com o frio em rebuliço, encontrar uma nesga aberta e impor o seu feitiço. O esforço é grande mas aceitam o que lhes oferece a parca desfeita. Não lutam mas afagam, não gemem mas acalmam e acariciam outras gentes. Acabou o tiritar dos dentes, a saudade dos verões ausentes que quentes a lareira nos torna. O crepitar do fogo no chão e a felicidade de não ter televisão adensam-se na tranquilidade. O mundo observa as chamas, o fumo sobe e aclama a pele que sente ternura, e ama. As portas não são comportas, são caminhos por desvendar, são passos ainda por dar tal criança trôpega e frágil. Não têm chave nem postigo pois assim é bem mais fácil abraçar um nosso amigo. Abrem e fecham, riem e choram que a vida é só isso, é aqui, é agora.
O possivel encanto de ir encontrando coisas belas sem as procurar...
domingo, 22 de novembro de 2020
segunda-feira, 9 de novembro de 2020
Hoje, a minha Mãe levou-me à escola. Com tudo em nós e contudo sem sacola. Fui inteiro, passo a passo, sola a sola. Ao ver a carteira de madeira, emocionado vi-me nela sentado quiçá um pouco assustado por ter tanto ainda a aprender. Mas há tempo ainda para ser e viver. Senti-me um grão lá na eira, pequeno mas parte da feira que é querer um mundo melhor. Não tive frio, havia portas. E as janelas tão bem fechadas abriam-se a tudo lá fora. Aos gritos das outras crianças, às brincadeiras entre árvores e à horta, a um futuro que a todos dizia respeito e ainda hoje mais importa. São letras, são livros, são histórias, são antepassados e vitórias, pois de luta somos nós feitos. Não foi passado, é presente. Não atirei o pião, foi diferente. Foi viajar na nossa criança, foi ganhar mais confiança e achar-me um pouco mais forte. Foram abraços e sorrisos, foi o crescer dos dentes do siso, pois navegar é assaz preciso. São documentos de lindos momentos, vivências contadas e vividas, e dadas sem nada pedido em troca. São Homens como não há. E na verdade só o Artista nos mostra o saber, o b-a-bá.
Que felicidade ter ido à escola, mesmo sem ter levado a sacola. Mais inteiro saí, passo a passo, sola a sola.
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