sexta-feira, 15 de dezembro de 2023


 


Olho os dias como letras, que se juntam e dizem coisas, que se passam construindo a vida. Aprendo que é a viver que escrevo a minha estória, não de livros nem de escolas mas de frases escritas nos dias que lhes usufruo das horas. Tal gaiato surpreso que aprende coisas novas que todos achamos saber, encanto-me que o Sol e a Lua sem pressa me mostrem o que devo escrever. Até gostaria de saber escrever sobre a vida e juntar letras enquanto cresço, mas suponho que só perto da morte o meu texto me mostre o saber.  Do estar, do ser, do agora porque ontem já foi,  não importa, é sobre hoje que quero aprender. Juntar letras é fácil, parece, dependendo do que pretendo dizer, juntar dias é mais fácil ainda se os bichos eu tentar perceber. É que eles já nascem com tudo, ou com nada se me faço entender. Já eu tenho os dias contados como as letras que me fizeram saber. Por isso procuro as outras, daquelas difíceis de ler. Faz-me ver que as letras que sei não são nada do que penso saber. Passo os dias como as letras que junto e olho as frases que podem nascer, vejo o tempo que passa e pergunto porque querem as pessoas correr. O tempo, esse, não pára e sinto que agora o estou a viver. Escrevo os dias com actos e letras e vejo assim que não estou a morrer. Olho-me e renasço. Sou, parágrafo.

sábado, 3 de junho de 2023



             Ontem olhei uma raposa nos olhos e no rio vi uma lontra a brincar. Hoje comi cerejas da árvore que por mim pareciam chamar. Não me aborrece esta vida sem tempo em que o acaso se torna o alento da Natureza humildemente eu amar. E não sei o que o amanhã me reserva só sabendo que caminho até lá. É um passo, são dois, outros tantos que me levam onde espero chegar, porque o caminho se faz caminhando sem a lontra e a raposa assustar. São dois seres que livres não esperam nos passos que eu dou enveredar, não tropeço, não corro e não quero os passos delas molestar. Admiro, sorrio e só espero que os meus olhos mais uma vez possam nos olhos destes seres pousar. Liberta-me, preenche-me e vivo o prazer de poder desfrutar da liberdade que elas vivem e sentem como sinto aquela cereja do pomar. Não sonho e vivo o que posso e vivo no sonho de como elas me libertar. De preconceitos, de julgamentos e intolerâncias que só me dão azia ao jantar. Que boa aquela cereja, que lindos os olhos da raposa e que bela a lontra a brincar.