quarta-feira, 28 de dezembro de 2022




Há muito que não via das nuvens tantas gotas de água a tombar, mas duvido que não tenham estado a cair e seja eu que não ande a olhar. Observar, ver e olhar são distintos estados da alma mas são juntos, os três todos eles, bons sinónimos do verbo sonhar. É que a chuva não molha por raiva, ao invés até hidrata e afaga, e por muita que seja essa água, ela cai carinhosa a meus pés. Olho o rio que trespassa as margens e vejo gotas de água apenas, observo que juntas conseguem o que a uma sozinha transcende, só fazendo as plantas mais ternas. Pois que se espantem os mais sábios se digo que adoro essas gotas nos lábios, que me correm dos olhos às vezes e transpiro com a luta e o trabalho. Sou água, sou ar e bem terra, e até fogo! que não me volto a queimar. Sou uma gota que a outras me junto para todas chegarmos ao mar. Não sou mais nem sou menos que as outras, apenas único na individualidade. Ontem queria ser Mar, Oceano, um rio largo com pontes e mais, mas hoje quero apenas ser gota, um ribeiro sereno que rega um terreno onde a horta sabe o que é amar. Não sou mais nem sou menos, sou eu, uma gota num todo tão grande que pequena me leva a sonhar. Como gota que sou vou em frente a sonhar qualquer dia o meu mar alcançar. Como a gota que não desespera, esperarei o meu rio me levar.
 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022



Olhava um espelho e vi que entre uma árvore e mim, se o posso dizer assim, não há tanta diferença enfim. Aparentemente, acrescento sim. Pois eu tenho cabelo e barba e algum pêlo por fim. Mas ela que tem as folhas e as flores, que nos dão milagre-atributos aos quais decidimos um dia chamar frutos. Pois eu tenho braços e mãos, e então ela que tem ramos e galhos, pauzinhos como agasalhos das misérias que andam p'raí. Eu corpo, ela tronco. Com uma base fundeada em raízes, capilares e algumas varizes de tantos pontapés que se lhes dão. E eu com apenas dois pés que apesar de os querer bem assentes, esvoaçam calçados no ar. Finco-os na pedra e no aço e peço ajuda a um braço para a ela me ligar. O outro apanha uma fruta para ganhar força p'rá luta que está aí a chegar. Rego as árvores com o meu ser porque espero um dia ter a honra de me aceitar. Como sou e posso ser, sem querer mais do que tenho ou possa mesmo merecer. Não há tanta diferença enfim entre uma árvore e mim, se o posso dizer assim. Apenas mais ética e valores como folhas de todas as cores, mais verdade e mais amor mesmo se a fruta tiver bolor e até a humildade construída como a casca e com a idade. A árvore tem humanidade e eu complico a vida, tão fértil em simplicidade, honestidade, sem dor. Talvez um dia eu consiga deixar de ser filho do Homem e se por uns momentos for árvore assim saberei que morri e pura Natureza renasci. Não há tanta diferença enfim entre uma árvore e mim, se me permitem que o diga assim.