segunda-feira, 20 de dezembro de 2021


        Sem esforço me enamoro do vento que chove as folhas que caem e cobrem este chão. Sem resistência os meus passos flutuam nestas nuvens escarlate escuro debaixo dos meus pés. Levito e avisto o Sol que nasce, que me envolve e ilumina, pintando de dourado esta massa única de vida e mudança. As folhas não caem, transformam-se. O Sol não avança, ampara, e a vida começa onde tudo acaba. É o galo que canta, são os cães que me olham. É a gota de orvalho que os meus olhos exploram. É um dia igual e tão diferente porém, como as penas e os cantos que só os pássaros têm. As pedras protegem do frio e pisam de leve a paisagem e o rio para que não voem com o vento que chove as folhas que caem e cobrem o chão. São pequenas e são grandes, folhas várias como nós, são folhas que passam e voltam, como elas os nossos avós. O respeito que me impõem de tão simples e belas que são, leva-me a caminhar em silêncio olhando, sorrindo, os meus cães. Eles sabem que tudo é efémero vivendo cada segundo do dia e da vida, e eu aprendo com eles alegre, que tudo não é um bilhete só d'ida. As folhas caem e depois voltam e há luz após a escuridão, é no frio que o calor me acolhe como estas folhas que cobrem o chão. Irei para onde vão isso sei, e para onde tal não me importa, porque quando pairo sobr'elas eu já fui, volto a ser árvore direita, outra torta. Sem esforço me enamoro deste vento que chove as folhas que caem e cobrem o chão.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021


        Os cães-nossos que estão na Terra foram a salto p'ra Espanha. Não foi mau, antes bonito e com eles já nada me estranha. O rio estava sereno e o Sol já fora do pleno acariciavam as árvores e as águas. Sob as folhas e sob o estio, adorando um desafio, procuraram outros caminhos. Novos destinos que só os desertos podem dar e nem foi preciso nadar. Nem tão pouco carimbos ou visas em documentos que nos querem a amar. Nossos cães não ficam fartos da liberdade de simples saltos como o são aqueles partos de amor das nossas mães. São instintos, é Natureza, é  muito simplesmente a beleza de fazer sem pecado e com paz. Que o Homem está a esquecer de ser capaz. Novos medos e preconceitos, censura opressora dos peitos de quem já não respira por si. A vergonha de inspirar muito fundo, de parecer que tal é um abuso para as normas julgadas globais. Não há globos, sim hemisférios, esqueçamos os receios e os tédios e saltemos juntos o rio. Colocar o pé numa pedra com os olhos em frente na margem que é bela e invulgar. Se molharmos o pé não importa, é apenas extremidade do todo em que o umbigo é ínfima parte, sem importância, valor ou riqueza a não ser a absoluta beleza de quando fetos à Mãe nos ligar. Deixemos de fixarmo-nos nele e olhemos a pura verdade. Somos como os cães natureza, disso tenho absoluta certeza, pois acabei de todos os rios saltar.

terça-feira, 13 de abril de 2021



       Hoje parei e vi a Terra mexer. Foi uma sombra por uns instantes sem quase me aperceber. Os pássaros cantavam como loucos e o vento fazia dançar os choupos como se não houvesse amanhã. Foi o Tempo a passar e o planeta a girar como aquele pião lá no pátio da escola. A vida passou num segundo, os minutos, as horas e o mundo deixaram de ser o que são. Foi uma sombra pequenina que como gaiata traquina não parou nunca de brincar. A luz do Sol inundava-a e ela arisca a escapar. São coisas assim que nos fazem por momentos duvidar se a Terra gira ao contrário e se os rios nascem no mar. Sabemos que não, no entanto, é a alegria de o contrário achar. A sombra foi encurtando pela força do Astro-Mor. Era eu a girar sem retorno, abraçado ao amigo e comparsa, o Sol. A Terra mexia e eu parei, pequenino e espantado a ver. Fiquei amigo daquela sombra pois está, no mesmo sítio, à mesma hora, acolá.
 

domingo, 28 de fevereiro de 2021



    


       Triste é fazer da vida negra quando tão colorida ela o é. Negras são algumas lindas flores, bem como alguns bons humores que fazem rir ao deus-dará. Negras são as naftas que boiam e que o mar de volta trará. Nem a noite sem as estrelas tal viúva que o não é, é tão negra como pensam, negra é certa maré. Vejo o negro como cor, sinto o negro como luz, e as negras dores que me ensinam que tudo é vida, e seduz. Tento ver longe no negro, vivo a claridade do todo finito, e encontro nesse momento um carinho tal um barco num porto de abrigo. Não me escondo nem tento fugir, da vida, da morte ou do escuro pois são coisas naturais do dia, e ver luz é saltar o muro. O muro é a minha cabeça, meus sentimentos e emoções,  salto a cerca sem estar aflito, e procuro um caminho, o meu fito. Do carinho, do amor e verdade, e assim, por conseguinte, da paz. É um caminho bem possível e até fácil se de me trabalhar for capaz. Por isso tento e não paro, não posso. Tenho e gosto de fazer. Para não definhar devagar, p'ra viver em pleno prazer.

       Não é triste nem vergonha morrer. Triste é fazer da vida negra quando tão simples de a pintar ela o é.