Olho os dias como letras, que se juntam e dizem coisas, que se passam construindo a vida. Aprendo que é a viver que escrevo a minha estória, não de livros nem de escolas mas de frases escritas nos dias que lhes usufruo das horas. Tal gaiato surpreso que aprende coisas novas que todos achamos saber, encanto-me que o Sol e a Lua sem pressa me mostrem o que devo escrever. Até gostaria de saber escrever sobre a vida e juntar letras enquanto cresço, mas suponho que só perto da morte o meu texto me mostre o saber. Do estar, do ser, do agora porque ontem já foi, não importa, é sobre hoje que quero aprender. Juntar letras é fácil, parece, dependendo do que pretendo dizer, juntar dias é mais fácil ainda se os bichos eu tentar perceber. É que eles já nascem com tudo, ou com nada se me faço entender. Já eu tenho os dias contados como as letras que me fizeram saber. Por isso procuro as outras, daquelas difíceis de ler. Faz-me ver que as letras que sei não são nada do que penso saber. Passo os dias como as letras que junto e olho as frases que podem nascer, vejo o tempo que passa e pergunto porque querem as pessoas correr. O tempo, esse, não pára e sinto que agora o estou a viver. Escrevo os dias com actos e letras e vejo assim que não estou a morrer. Olho-me e renasço. Sou, parágrafo.
SERENDIPANDO / O encanto do possivel
O possivel encanto de ir encontrando coisas belas sem as procurar...
sexta-feira, 15 de dezembro de 2023
sábado, 3 de junho de 2023
quarta-feira, 28 de dezembro de 2022
sexta-feira, 9 de dezembro de 2022
segunda-feira, 14 de março de 2022
Ainda há pouco, ao anoitecer, vi o silêncio do vôo do mocho. Logo eu que faço tanto ruído a pensar. Não foi sonho nem puro acaso, mas simplesmente um mocho a voar. Talvez eu gostasse de ser também pássaro e sem barulho entre as árvores estar. É perfeição a que não me destino nem anseio o mocho imitar. Ele é a Natureza em delírio e eu sou só um entre muitos, igual. Sou pequeno quando vivo estas coisas de tão simples e nobres que são, bichos livres e puros apenas, enquanto eu complico amiúde e ao pensar sou cativo e prisão. Sou defeitos, desfeitas, tristezas, sou talentos e poucas maleitas, sou doente e recuperação. Sou só eu indivíduo imperfeito mas em crescendo, em melhor, em acção. Olho os mochos, as formigas, as abelhas e os meus cães todos eles, pois são, quem me ensina que a vida é só ser, ser eu próprio e aceitar, dar a mão. Abraçar, amparar, repartir, ouvir mais e aprender sem temor, o amor é o silêncio do mocho, é o mel, é o vento, é a côr. Todo o bicho é Natureza profunda e eu só cresço quando sinto uma dor. Mas não me queixo e sigo em frente, escalo montes e montanhas até, mas não quero correr sem destino, devagar, passo a passo, pé ante pé. Sou um bicho e quero ser mais, e não quero fazer ruído a pensar, quero voar em silêncio na vida como o mocho que eu vi hoje a passar.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2021
Sem esforço me enamoro do vento que chove as folhas que caem e cobrem este chão. Sem resistência os meus passos flutuam nestas nuvens escarlate escuro debaixo dos meus pés. Levito e avisto o Sol que nasce, que me envolve e ilumina, pintando de dourado esta massa única de vida e mudança. As folhas não caem, transformam-se. O Sol não avança, ampara, e a vida começa onde tudo acaba. É o galo que canta, são os cães que me olham. É a gota de orvalho que os meus olhos exploram. É um dia igual e tão diferente porém, como as penas e os cantos que só os pássaros têm. As pedras protegem do frio e pisam de leve a paisagem e o rio para que não voem com o vento que chove as folhas que caem e cobrem o chão. São pequenas e são grandes, folhas várias como nós, são folhas que passam e voltam, como elas os nossos avós. O respeito que me impõem de tão simples e belas que são, leva-me a caminhar em silêncio olhando, sorrindo, os meus cães. Eles sabem que tudo é efémero vivendo cada segundo do dia e da vida, e eu aprendo com eles alegre, que tudo não é um bilhete só d'ida. As folhas caem e depois voltam e há luz após a escuridão, é no frio que o calor me acolhe como estas folhas que cobrem o chão. Irei para onde vão isso sei, e para onde tal não me importa, porque quando pairo sobr'elas eu já fui, volto a ser árvore direita, outra torta. Sem esforço me enamoro deste vento que chove as folhas que caem e cobrem o chão.
quarta-feira, 4 de agosto de 2021
Os cães-nossos que estão na Terra foram a salto p'ra Espanha. Não foi mau, antes bonito e com eles já nada me estranha. O rio estava sereno e o Sol já fora do pleno acariciavam as árvores e as águas. Sob as folhas e sob o estio, adorando um desafio, procuraram outros caminhos. Novos destinos que só os desertos podem dar e nem foi preciso nadar. Nem tão pouco carimbos ou visas em documentos que nos querem a amar. Nossos cães não ficam fartos da liberdade de simples saltos como o são aqueles partos de amor das nossas mães. São instintos, é Natureza, é muito simplesmente a beleza de fazer sem pecado e com paz. Que o Homem está a esquecer de ser capaz. Novos medos e preconceitos, censura opressora dos peitos de quem já não respira por si. A vergonha de inspirar muito fundo, de parecer que tal é um abuso para as normas julgadas globais. Não há globos, sim hemisférios, esqueçamos os receios e os tédios e saltemos juntos o rio. Colocar o pé numa pedra com os olhos em frente na margem que é bela e invulgar. Se molharmos o pé não importa, é apenas extremidade do todo em que o umbigo é ínfima parte, sem importância, valor ou riqueza a não ser a absoluta beleza de quando fetos à Mãe nos ligar. Deixemos de fixarmo-nos nele e olhemos a pura verdade. Somos como os cães natureza, disso tenho absoluta certeza, pois acabei de todos os rios saltar.
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